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PESQUISA EM HABITAÇÃO POPULAR 
PROJETOS COMUNITÁRIOS

Prof. Francisco José Casanova

   

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O resíduo que vira cimento

Conheça a Casa Ecológica Popular

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O professor de engenharia Francisco Casanova, dentre outras atividades, está construindo moradia popular para quem não tem teto. Em seu laboratório na Coppe, reinventou uma técnica para fazer tijolos e cimento do solo e de resíduos industriais. Barato e ecológico. Há mais de duas décadas, o professor percorre de favelas a empreiteiras, de prefeituras brasileiras aos governos no exterior, em busca de quem queira financiar o invento, até pouco tempo relegado às prateleiras pelos próprios acadêmicos. Agora, depois do aval das Organizações das Nações Unidas (ONU) e do Musée de Caen, na França, seu projeto começa a sair do papel.

Foi depois que o professor expôs seu projeto no Fórum Internacional de Ação Solidária para o Desenvolvimento Social da Unesco, em Paris, há dois anos, e seu estudo publicado em mais de 140 línguas, que suas idéias foram reconhecidas. Depois de tentar emplacar os materiais em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e no programa Favela Bairro no Rio, foi convidado pela prefeitura de Volta Redonda para levar a técnica para as Vilas da Cidadania. Casanova gostou da proposta e vai ajudar a prefeitura a remover populações de áreas de risco para pequenas vilas construídas com o seu tijolo e cimento. Bem localizadas e com 47 metros quadrados cada, as casas serão construídas pelos alunos da “Universidade da Cerâmica” que será montada em galpões próximos ao projeto. Casanova pretende ensinar técnicas de construção de fabricação dos tijolos.

Casanova também já tinha batido muitas vezes à porta da Caixa Econômica Federal (CEF), sem sucesso. Dessa vez, foi o banco que o procurou, oferecendo verba para criar uma casa ecológica popular. O protótipo vai ganhar forma na Baixada Fluminense, juntando além do tijolo e do cimento verdes, catalisadores de energia solar e outras técnicas de uso sustentável dos recursos naturais. “A idéia é mostrar que estas técnicas, geralmente associadas a projetos de elite, podem ser usadas na habitação popular”, diz o professor.

Bons para o bolso

O engenheiro prova o que diz na ponta do lápis. Tanto o tijolo de solo-cimento, quanto o tijolo feito a partir de resíduos industriais e o cimento verde trazem lucros para o bolso e para o meio ambiente. "Uma casa de alvenaria com 40 metros quadrados, sai pelo preço de custo de 12 a 15 mil; usando o tijolo de solo-cimento, outra do mesmo tamanho teria um desconto de 40% a 50%", propagandeia Casanova. A vantagem sobre o tijolo tradicional, feito em olarias, não é só econômica. Além de agradar aqueles que não têm tetos, conquista ecologistas também. O tijolo de solo-cimento dispensa o cozimento, necessário na fabricação dos tijolos nas olarias. Com isso, são menos 12 árvores de médio porte ou 170 litros de óleo que deixam de ser queimados a cada milheiro de tijolos.

A fórmula dos três inventos começou a ser elaborada quando Casanova resgatou o tijolo de solo estabilizado em laboratórios europeus. Depois de se formar em química na UFRJ, passou pela Suíça, França e Portugal como aluno de mestrado e doutorado em engenharia civil pela Coppe. Foi na Europa pós-guerra que foi buscar o remédio para o Brasil sem teto.

A receita do tijolo de solo estabilizado é simples: mistura-se solo, água e uma pitada de cimento e leva-se a massa para uma prensa. Depois de sete dias protegido do sol, está pronto. Como apoio do CNPq, da Faperj e Finep, Casanova aperfeiçoou a técnica, estudando as peculiaridades dos solos brasileiros e transformando a lição européia em casa dos sonhos por aqui. Feito brinquedo de criança, o tijolo encaixa um no outro, sem necessidade de cimento, até levantar a construção. Depois é só passar um impermeabilizante e aplicar cimento nas colunas de sustentação. A casa pode ser em tons de vermelho, bege, amarelo, branco, dependendo das propriedades do solo.

Do ponto de vista da proteção ambiental, o tijolo e o cimento feitos de lixo industrial são ainda mais verdes. Depois de criar fórmulas com todo tipo de solo, do argiloso ao arenoso, o professor decidiu tentar usar os rejeitos que se acumulavam nos pátios de fábricas de química, metalurgia, siderurgia, mineração, pedreiras e galvanização. Amontoados em galpões, estes resíduos ocupam espaço, poluem o solo e contaminam lençois de água no subsolo. E esse lixo, visto como problema, virou sinônimo de solução.

A escória, resíduo das usinas siderúrgicas, é a base para a composição do cimento verde. A cada tonelada de aço produzido, mais de 300 quilos de uma espécie de lava escorre dos altos fornos, a 1600 0C. Resfriada, torna-se uma espécie de areia, formada pela argila do minério de ferro misturada com silício e alumínio: a escória. Volta Redonda virou um paraíso para Casanova. Berço da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a cidade atraiu muitas outras indústrias de base, todas produtoras de matéria-prima para o cimento e o tijolo de Casanova.

O cimento de sobrenome “verde”, demora mais a secar do que o cimento convencional, mas é mais compacto e resistente. Melhor: não precisa ir para o alto forno, como acontece nas indústrias de cimento Portland, o que nesses tempos de “apagão”, deixou de ser só ecologicamente correto para ganhar o mérito de economicamente viável.

De acordo com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP), porta-voz das grandes indústrias do cimento, como a Votorantim e a Camargo Correa, os custos com energia elétrica e combustíveis são os vilões da indústria. Eles significam, respectivamente, 15% e 45% do total de gastos. Na calculadora, a conta de energia fica gorda: o consumo em média por tonelada de cimento produzido no país é de 112kw/h. Resultado: dói no bolso de todo mundo, principalmente no do consumidor.

De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC), as cimenteiras gastam ainda 12% com mão-de-obra e 28% com outros custos, como matéria prima. Casanova tira a mão da massa, faz as somas e revela, não só suas fórmulas, mas as dos “concorrentes” também. “O clínquer – cimento puro, feito de argila e calcário, aquecido a 1.500o C – custa pelo menos R$ 80 a tonelada. A escória é muito mais barata. As cimenteiras então fazem o quê? Tiram até 70% de clínquer e no seu lugar adicionam a escória moída, cuja tonelada custa R$ 12. Para nós, pobres mortais que compramos o cimento no varejo, o saco de 50 kg sai a R$ 12,00, ou seja, R$ 240,00 a tonelada”, diz, indignado.

É este o preço que pagam pequenos construtores, cooperativas, sem esquecer da população de pedreiros que, entre um biscate e outro, “levanta sua laje” no evento de fim de semana. São eles os consumidores de 75% do cimento produzido no país. Segundo relatório apresentado mês passado na Conferência da ONU “Istambul +5” pelo governo brasileiro, as famílias mais pobres têm de se virar para construir sozinhas suas moradias, e estão cada vez mais em situação de informalidade. Nas áreas urbanas, representam 50% da população. Só no Rio, os favelados são 25%.

O projeto poderia minimizar um dos paradoxos brasileiros. O país tem algumas das maiores empresas produtoras de cimento no mundo – a Votorantim é a sétima no ranking– e é também um dos mais carentes em moradia. A própria indústria da construção confirma isso. Conforme o SNICc, o déficit era, em 1999, de mais de 5 milhões de unidades.

Construtor franciscano

As cimenteiras são um alvo favorito do professor. Ele critica a Votorantim e a Tupi por não doarem um pouco da escória que compra da CSN para o projeto da prefeitura de Volta Redonda. “Falta à universidade e principalmente ao empresariado o que nos países ricos se denomina de cidadania corporativa”, dá bronca. Outras empresas da região, no entanto, colaboraram doando resíduos. “A gente até entende. De alguma forma, vamos concorrer com eles”, consola-se o engenheiro Paulo Neto, coordenador do projeto.

Não é só o sobrenome que parece traduzir o trabalho de Casanova. O nome Francisco também parece adequado para quem, como ele, costuma subir favelas para ajudar na construção de casas. Ele junta gente em escolas improvisadas e ensina as fórmulas do ramo da construção para serem postas em prática em forma de mutirão. Está caro o tijolo, está caro o cimento? “Organizem-se que eu ensino”, diz ele.

Foi numa dessas que começou a freqüentar as vielas do Rato Molhado e do Morro do Queto. “Era difícil, muita gente não tinha nem noção de medida”, conta. Mesmo assim, era gratificante ver adolescentes e idosos trabalhando juntos e no mesmo pique. “Cheios de vontade de ter sua casinha. Era bom também porque ocupa os adolescentes”, diz, ressentido com a prisão de dois jovens que participavam do grupo de Japeri. “Esses e outros jovens saíram do grupo desde que eu deixei o projeto nas mãos do Lar Fabiano de Cristo”, conta, desolado. Ele passou a negar ajuda quando a entidade espírita deixou de construir casas para moradores para botar de pé sua própria sede, com empréstimo do BNDES. “Eu não fui chamado para construir prédio para eles, mas para ajudar a comunidade. Eles poderiam até montar uma cooperativa e assim teriam emprego,” sugere ele, autor de estudos como “A opção pelo pobre e pelo excluído: a pobreza da tecnologia e a tecnologia da pobreza”.

Casanova acaba de partir para a República Dominicana, onde, a convite do governo, vai passar um mês ensinando a construir e implementar programas habitacionais para população de baixa renda. Honduras, Chile, Ilha de Páscoa, África do Sul, Timor Leste também estão nos seus planos. Até a França demonstrou interesse. Afinal, os países ricos também têm seus pobres. E eles bem que poderiam aproveitar uma mãozinha de Casanova.

 

 
 
 

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