Se você acredita que segurança na Internet é coisa de paranóico e
considera que o máximo em segurança é o ícone do cadeado se fechando
na janela do seu browser, prepare-se para a má notícia.Neste
exato momento, milhares de computadores podem estar sendo invadidos,
por gente que sabe muito bem o que está fazendo, ou mesmo por
adolescentes querendo se divertir. Crackers, hackers, phreaks, lamers
e toda uma fauna de criaturas perigosas está mais ativa do que nunca.
Há muito tempo a Internet não figurava nas páginas policiais dos
jornais, e nem merecia tamanho destaque da mídia em geral, como
aconteceu quando os "monumentos" da Rede sofreram maciços ataques que
revelaram o quanto a estrutura da Internet é frágil. De uma hora para
outra, sites importantes como Yahoo!, E-Trade, Datatek, ZDNet, CNN,
Amazon, Buy.com e eBay saíram do ar ou sofreram pesados ataques.
OK. A Internet não é segura. E, só pra variar, a coisa aqui no
Brasil é até pior, porque não há legislação específica para punir os
malfeitores digitais. O que se tenta fazer é enquadrar o bandido em
outros delitos, como estelionato, falsidade ideológica ou crime contra
a segurança nacional.
Nos EUA existe uma legislação para punir autores de crimes
digitais. A lei americana é dura: 5 a 10 anos de prisão e multa de US$
250 mil. É a essa pena que estão sujeitos os vândalos da Internet (que
a mídia chama de hackers, mas veremos adiante que esse não é o termo
correto) que atacaram a Rede em fevereiro. Isso se eles forem
encontrados.
O caso do Yahoo! foi um singular exemplo desse tipo de ataque:
em questão de minutos, uma onda gigantesca de acessos tirou do ar o
site mais requisitado da Internet. O método usado no ataque pode ser
entendido por meio de uma analogia. É como se você desse tanto
trabalho para uma pessoa fazer que ela pararia tudo o que estivesse
fazendo para ficar só anotando os seus pedidos, sem prestar atenção a
mais ninguém.
O nome desse tipo de bloqueio é Distributed Denial of Service (DDoS),
que significa "Serviço Negado Distribuído". A expressão vem do fato de
que o servidor sobrecarregado recusa-se a servir novos usuários. O
"Distribuído" quer dizer que o ataque vem de vários computadores ao
mesmo tempo - uma modalidade de ataque que entrou em moda
recentemente. Segundo o Yahoo!, o tráfego gerado pelo ataque que
paralisou seus sistemas foi da ordem de 1 gigabit por segundo - mais
informação do que alguns sites recebem durante um ano inteiro!
Um especialista em segurança ouvido pela Magnet (que não
autorizou a publicação de seu nome) confirmou que a onda deve ter sido
monumental. "O Yahoo! ter ficado fora do ar por três horas significa
que os ataques devem ter vindo de milhares de computadores espalhados
pela Web. Não foi serviço de amadores".
No Brasil, o UOL, o iG e o Zip.net acusaram ataques semelhantes
- no caso do UOL, originado em máquinas localizadas nos EUA. Como
existe um histórico no país de provedores que ficam várias horas fora
do ar por problemas internos ou da Embratel, é provável que os ataques
DDoS acabem virando um bode expiatório para muita gente, ganhando por
aqui um novo significado: Desculpa Do Operador de Sistema.
Ataques deram dinheiro para muita gente
A insegurança na Internet é um negócio lucrativo, da mesma forma
que o é na vida real. Nos dias seguintes aos ataques de fevereiro, as
ações de companhias que produzem equipamentos e softwares para
segurança de computadores sofreram substanciais aumentos: algumas
tiveram o preço de suas ações elevado em até 22%. A temporada de
ataques também está deixando muito consultor feliz: pesquisas mostram
que o mercado de segurança ficará em alta por pelo menos dez meses,
apoiado também pelo crescimento do número de sites de comércio
eletrônico.
Segundo analistas norte-americanos, o corre-corre causado pelos
ataques gerou muita especulação na Bolsa, já que até papéis de
companhias que nada tinham a ver com sistemas de proteção contra DDoS
tiveram alta. Já outras, como a Check Point, uma das líderes em
segurança de rede nos EUA, foram acusadas de negligência. Há
indicações de que servidores de clientes seus foram "seqüestrados"
para inundar o Yahoo! e outros sites atacados em fevereiro.
Mudança de perfil
A Internet é um poço sem fim de informações. Seu crescimento e
popularização fizeram com que o número de "receitas de bolo"
(tutoriais práticos) para invasão de computadores crescesse muito, bem
como o número de servidores desprotegidos, sem filtro algum para tipos
mais comuns de ataques. É fácil invadir um sistema fraco, dizem os
especialistas. O difícil mesmo é invadir sem deixar rastros. É por
isso que cracker que é cracker mesmo não fica se mostrando, concedendo
entrevistas e alterando home pages de sites conhecidos. O trabalho
desses criminosos é muito mais sutil e envolve principalmente roubo de
informações confidenciais. Casos e boatos desse tipo não faltam. O
último foi a tentativa de bloqueio das contas bancárias do ditador da
Iugoslávia, Slobodan Milosevic, pela CIA (agência de espionagem
norte-americana), que resultou em total fiasco, uma vez que a operação
foi descoberta pela revista Newsweek e divulgada para o mundo todo.
O ataque aos grandes portais foi um ato de pura força bruta,
facilitado pela disseminação de infra-estruturas de banda larga, que
oferecem altas velocidades para o tráfego de dados. Com certeza, os
vândalos não perderam tempo sequestrando pecezinhos ligados a
provedores por conexão discada. As máquinas mais visadas para servirem
de apoio a ataques desse tipo são aquelas que são plugadas à Internet
por meio de conexões dedicadas, como linhas T1, cable modems, ADSL ou
ISDN, que garantem velocidades altas e possuem um endereço fixo na
Internet, permitindo que o invasor controle cada máquina
cuidadosamente para não deixar que seu usuário perceba que foi
invadido.
Chaves e cadeados
Como saber se é possível confiar em um site na hora de fazer
compras? Basta olhar no cantinho de baixo do navegador e verificar se
existe um cadeado fechado (Internet Explorer) ou uma chave (Netscape
Navigator), certo? Errado.
Os símbolos de site seguro na verdade se referem apenas ao
trânsito das mensagens. O cadeado e a chave são maneiras gráficas de
dizer que as informações que você está enviando para fazer o pedido de
um item (número de cartão de crédito, endereço, telefone etc.) e a
resposta do site que chega até seu navegador estão sendo
criptografados (cifrados). Nada impede, por exemplo, que um hacker
esteja infiltrado em seu computador, arquivando todas as informações
que você está digitando no formulário de compra. Do lado do site é a
mesma coisa: afinal, o protocolo SSL é responsável pela encriptação
somente do trânsito das informações. Assim, se a loja virtual em que
você estiver comprando não tiver nenhum cuidado ou sistema de
segurança para seu banco de dados, as suas informações pessoais podem
estar sofrendo risco de serem copiadas. É claro que, nos grandes sites,
existem recursos para bancar políticas de segurança rígidas. Afinal,
uma quebra de segurança pode derrubar a credibilidade de qualquer
negócio na Rede.
Mesmo com essa precaução, não dá para relaxar. Já houve casos de
vazamentos de informações de grandes lojas virtuais. O exemplo mais
recente é o do site CD Universe, uma das maiores lojas de CD da
Internet. Um cracker simplesmente invadiu e roubou 300 mil números de
cartões de crédito dos clientes e colocou parte deles em um site, à
disposição de quem quisesse usar. O que ele queria? Receber US$ 100
mil em troca de manter silêncio e não divulgar os números restantes.
Existem outras formas de ser enganado na Rede, como criar
endereços-espelhos de grandes sites para que internautas desavisados
pensem que estão digitando dados no formulário de registro da empresa,
quando na verdade os estão enviando para o autor da página falsa.
Crackers são pessoas criativas.
Segurança começa no provedor
Outro problema bastante sério é em relação à política de
segurança dos provedores de acesso. Aqui a ordem se inverte.
Provedores maiores são os mais sujeitos a ter problemas de segurança,
em virtude de seu próprio tamanho. "Soluções simples que podem evitar
muitos transtornos ao usuário, como a configuração de filtros que
impeçam a ação de programas invasores comuns, muitas vezes não são
utilizados porque geram custos adicionais e não são solicitadas pelos
usuários", diz um analista ouvido pela Magnet. Provedores pequenos,
pelo contrário, podem manter mais facilmente um controle preciso de
seus equipamentos.
Com o crescimento do perigo na Internet, a melhor medida de
segurança que você pode tomar é escolher um provedor que tenha um
compromisso mínimo com a defesa dos dados de seus clientes. Leia o
contrato de assinatura até as letras miúdas, para ver se ele não tem
cláusulas que eximam o provedor de responsabilidade caso algum hacker
invada o computador de um usuário. Procure conhecer a política de
segurança do seu servidor.
Eterna vigilância
"Só porque eu sou paranóico, não quer dizer que não tem ninguém
atrás de mim". Se você pensa assim, o melhor é se prevenir, nem que
seja para conseguir dormir um pouco. Na verdade, tomando as precauções
a seguir, você praticamente terá eliminado 99% das chances de alguém
conseguir pôr os olhos em seus dados privados.
* Não ligue o que você não vai usar. Se o seu computador não
está ligado em rede com outras máquinas, desligue os protocolos de
rede que só vão servir para dar de bandeja o seu disco rígido para um
lamer. Verifique se a opção "Servidor de rede" (Network Server) está
desabilitada. Vá no Painel de Controle, clique em Sistema e, na guia
Desempenho, clique no botão Sistema de Arquivos. Em seguida, clique na
guia Disco Rígido e deixe a opção "Função deste computador" em
"Computador pessoal" no campo mostrado.
* Não deixe a porta aberta. Se você trabalha em uma rede
pequena, sem firewall (máquina que faz ligação entre duas redes,
bloqueando parte dos acessos), deixe as opções que estão em
"Compartilhar minha impressora e arquivos" (Painel de Controle ¡
Ambiente de Rede) desabilitadas. Se estiverem ativadas, permitirão que
alguém veja seus arquivos. Não deixe pastas compartilhadas na árvore
de diretórios sem senhas. Isso também pode facilitar a entrada de
desordeiros em seu computador. Também, nunca efetue nenhuma conexão
externa, Internet ou não, sem conhecimento e autorização expressa do
responsável pela rede.
* Tranque a porta dos fundos. O Windows 98 vem pré-configurado
com algumas opções perigosas, como protocolos de comunicação que só
servem para redes corporativas e abrem muitas brechas para invasores
fazerem a festa em seu sistema. Para evitar isso, desinstale os
protocolos NetBIOS, IPX/SPX. Clique com o botão direito do mouse no
ícone Ambiente de Rede, que fica na área de trabalho. Na janela que se
abrir, selecione os dois elementos indesejáveis e clique em Remover.
* Mantenha seus programas atualizados. No caso do Windows 98,
fique de olho nas atualizações e remendos para tapar falhas de
segurança do sistema, periodicamente disponibilizadas pela Microsoft
(http://windowsupdate.microsoft.com). Mantenha sempre atualizados
programas visados pela molecada que adora bolar vírus, como o Office,
e softwares que fazem uso intensivo da Internet, como o ICQ. Lembre-se
ter sempre a última versão de um bom antivírus, como o ViruScan da
McAfee ou o Norton Antivirus.
* Feche a janela no semáforo. Quando estiver navegando em sites
suspeitos (sexo, hackers etc.), desabilite as opções de aceitação de
serviços Java, JavaScript e ActiveX do seu browser. No Internet
Explorer 5.0, vá para o menu Ferramentas e clique em Opções. Após
isso, clique na guia Segurança e deixe a barra deslizante em médio ou
alto. No Navigator, vá para o menu Editar e clique em Preferências ¡
Avançado e desligue o suporte a Java e JavaScript.
* Não saia por aí com o IP aparecendo. O ICQ, programa de
mensagens instantâneas, também pode ser uma arma nas mãos de um
vagabundo digital. Configure o programa para não publicar o seu
endereço IP (número que identifica seu computador na Internet). Para
isso, clique no botão ICQ, vá para Preferences & Security, Security &
Privacy e cheque a caixa "Do not publish IP address".
* Não dê bandeira. Aproveitando que você acabou de proibir que
outras pessoas vejam seu IP, desselecione a opção logo abaixo para
evitar que pessoas fora da sua lista de amigos o vejam online. Depois
disso, do lado esquerdo, clique no botão de rádio "My authorization is
required", para evitar que alguém o adicione em sua lista sem
permissão.
* Não aceite balas de estranhos.
É a dica mais baba, mas vale a pena ser repetida. Nunca, jamais,
abra um arquivo executável enviado por alguém que você conhece ou não.
Esses procedimentos não livrarão de todos os perigos, mas vão
dar uma canseira no desocupado que tentar invadir seu pobre
computador. Como no seu HD não tem muita coisa valiosa para ser
haqueada, ele vai procurar alguém que não tenha lido este artigo. |