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| O Ensino superior está entregue aos barões e tubarões |
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É um fenômeno contrário ao que se verifica nos demais níveis de ensino. A universalização do acesso ao ensino fundamental e ao ensino médio concentra-se, predominantemente, na rede pública. A situação beira o paradoxal. Numa primeira etapa, o setor público acolhe os alunos do andar de baixo da pirâmide social. Em seguida, cria obstáculos para eles dêem prosseguimento aos estudos e possam alcançar o topo da pirâmide. Senão vejamos: em 1995, as instituições privadas tinham pouco mais de 1 milhão de alunos. No ano passado, elas já abrigavam mais de 1,8 milhão - um aumento de 70,6% no curto espaço de cinco anos. Expandiram a oferta em 750 mil novas vagas. No mesmo período, as instituições públicas ampliaram sua matrícula de 700 mil para 887 mil, o que corresponde a um crescimento de modestos 26,7%. De 1995 a 2000, a taxa média de crescimento anual foi de 4,8% nas públicas e 11,3% nas privadas. Esses números estão longe de ser considerados "espetaculares", como definiu o ministro da Educação, Paulo Renato Souza. Tampouco representam "uma revolução em quantidade e qualidade". A continuarem crescendo com essa rapidez, as instituições públicas, que hoje detêm apenas 33% da matrícula, terão menos de 25% em 2005. Agora entende-se a razão pela qual o presidente Fernando Henrique Cardoso vetou uma das metas do Plano Nacional de Educação, justamente a que estabelecia que o setor público mantivesse, até o final da década, nunca menos de 40% do total de matrículas no ensino de graduação. Sabe qual é? Trata-se de uma lógica perversa. Ao privilegiar o setor privado com o seu balcão de autorizações, inclusive com a ajuda do BNDES, o governo se exime da sua responsabilidade e deixa o mercado livre para atuação de um grupo de apetitosos empresários. É o inverso do que ocorreu em outros países, como a Espanha, após a redemocratização daquele País, em 1975, onde o governo bancou uma expansão em massa de matrículas na rede pública para elevar o nível de escolaridade da sua população. Embora as instituições públicas tenham feito um esforço elogiável para ampliar o atendimento nos últimos anos, sua capacidade de fazer frente à ofensiva dos barões e tubarões do ensino pago é limitada. Faltam recursos orçamentários para que elas tenham condições de enfrentar de igual para igual a concorrência. Falta vontade, também. O Brasil sepultou a ditadura e as nossas universidades públicas se negaram a rever seu modelo excludente. Fecharam-se em copas, mantendo um sistema seletivo afunilado, ao invés de abrir suas portas para toda a sociedade. Mesmo se esforçando para atender mais alunos, elas insistem na preservação desse modelo. Não dá para entender, francamente. A opção pelo ensino pago é duvidosa, no meu ponto de vista. É que essa expansão toda está sustentada em frágeis alicerces. São cursos de baixo custo, que se refugiam debaixo do guarda-chuva das carreiras tradicionais - direito, administração, comunicação social, entre outras -, já saturadas ou à beira da saturação. Para serem montados, exigem uma infra-estrutura mínima: aluga-se um galpão, contratam-se alguns professores, espalham-se algumas carteiras pelas salas e basta. O circo está armado. Não sei se esse crescimento é sustentável a longo prazo. Existe um sério descompasso entre a velocidade da matrícula e da economia. Elas, que sempre andaram de mãos dadas, hoje caminham para lados opostos. No passado, a taxa média de crescimento anual do conjunto do sistema foi de 18% na década de 60 e de 13% na década de 70. Foi um período de atentados à liberdade de expressão, mas de vigorosa expansão econômica. Justificável, portanto, que a matrícula crescesse a passos largos. Agora, no entanto, o que estamos vendo é um significativo aumento da matrícula - menor um pouco do que o das décadas de 60 e 70 - e um baixo crescimento econômico. Sabendo-se de antemão da crônica deficiência de articulação entre essas instituições de ensino e o mercado de trabalho, corremos o risco de estar produzindo uma multidão de desempregados se a economia não deslanchar nos próximos anos. O mercado já reluta em contratar essa mão-de-obra com má-formação. Um estudo dos economistas Ricardo Paes de Barros e Rosane Mendonça, do Ipea, aponta que nas cidades do Rio de Janeiro e em Porto Alegre existe um superávit de profissionais à espera de emprego. A estrutura ocupacional dessas capitais já não dá conta de absorver a leva de "profissionais" que saem das universidades. Se o modelo escolhido pelo ministro Paulo Renato Souza para desenvolver o ensino superior, com o consentimento obsequioso da intelectualidade que se abriga sob o manto corporativo das nossas universidades públicas, está certo ou errado, só tempo dirá. Mas, enquanto avança, ele começa, ao mesmo tempo, a dar sinais de fraqueza. Isso é público e notório. Prova cabal foi o aparecimento de um número impressionante de candidatos ao concurso para lixeiro da cidade de São Paulo que portavam diploma de nível superior. Isso demonstra que o canudo, hoje em dia, não é sinônimo de garantia de emprego para ninguém. Porém, se a vida já é difícil para os que têm diploma, pior sem ele. Diante de um mercado de trabalho extremamente seletivo, é o rigor na escolha do curso que vai determinar o sucesso ou o fracasso do futuro formando. O modelo "revolucionário" inventado pelo Ministério da Educação para alavancar o ensino superior está aí, todo dia, a ocupar as TVs e páginas e páginas de jornais e revistas para vender ilusões. As facilidades são tantas. As promessas, idem. Todo cuidado é pouco para não embarcar em canoa furada. Porquê, meu caro, se você não abrir o olho, não há ninguém que fará isso por você. O futuro de nossos
jovens e do Brasil que queremos está sendo entregue às mãos dos
mercadores do ensino. Isso é um fato que número algum do Censo do
Ensino Superior, divulgado esta semana, consegue desmontar. As instituições
públicas perdem terreno a cada dia. A greve nas universidades federais
se arrasta pela intransigência que move ambos os lados (MEC e Andes).
Será o prenúncio da morte lenta e silenciosa da gratuidade do ensino e
a derrocada das instituições federais de ensino superior? Quem viver,
verá. |
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Atualizada: 09-02 |
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Webmaster: Prof.
Emilson Damasceno |
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